O reforço (positivo ou negativo) são responsáveis por aumentar a frequência de um comportamento. Hoje abordaremos um pouco das consequências de usar o reforço e também de não usá-lo no dia-a-dia dos cães.

Burrhus Frederic Skinner era um psicólogo americano mais conhecido por sua influência no behaviorismo. Skinner se referiu à sua própria filosofia como “behaviorismo radical”. Esse grande cientista do século XX, usou da análise experimental do comportamento para criar os quadrantes do condicionamento operante e hoje discutiremos sobre dois desses quadrantes, que são o reforço positivo e o reforço negativo.

Para Skinner, reforço ou reforçadores são respostas do ambiente que aumentam a probabilidade de um comportamento se repetir. E eles se dividem em reforço positivo e negativo.

Ao contrário do que muitos acreditam, dentro da teoria do condicionamento operante, positivo e negativo não significam bom e ruim. Esses termos na verdade têm um significado matemático: positivo é o mesmo que adição e negativo é o mesmo que subtração.

Reforço positivo é uma resposta do ambiente que aumenta a probabilidade de um comportamento se repetir a partir do acréscimo de algo favorável ao indivíduo. Ex: o cão realiza um comando pedido e o treinador oferece ração como recompensa. Ou seja, o treinador inseriu algo dentro da figura de treino para recompensar o cão e reforçar o comportamento.

Reforço negativo é uma resposta do ambiente que aumenta a probabilidade de um comportamento se repetir a partir da subtração de alguma coisa desfavorável ao indivíduo. Ex: quando o motorista entra dentro de um carro mais moderno e não coloca o sinto de segurança, o carro emite um som que incomoda e alerta para o uso do cinto, assim que o motorista coloca o sinto, o som acaba. Ou seja, o carro retira o som como recompensa pelo motorista ter colocado o sinto.

No treinamento canino, reforço positivo e reforço negativo é quando você insere ou retira alguma coisa para reforçar um comportamento e, dessa forma, aumentar a chances que ele se repita.

AGORA VAMOS ENTENDER O QUE O REFORÇO IMPLICA NO NOSSO DIA A DIA

Partindo da teoria do condicionamento operante, todo comportamento é resultado de uma consequência e pode ser modelado utilizando reforçadores e punições. Inclusive, muitos problemas comportamentais são resultados disso, pois é bastante comum que as pessoas reforcem comportamentos indesejados sem saber que estão ensinando algo para o seu cão que  pode ter consequências negativas no futuro.

Alguns casos são emblemáticos e ocorrem com grande frequência, por isso utilizaremos deles para mostrar um pouco do que o reforço utilizar da hora errada pode causar.

CASO 1: CÃES INSEGUROS

É comum encontrarmos donos de cães pequenos que colocam seu cachorro no colo quando outro se aproxima dele. E em alguns desses casos, o cachorro que foi para o colo começa a latir e rosnar enquanto é acariciado pelo seu dono tentando acalmá-lo.

Quando analisamos esse comportamento do ponto de vista do dono, existe um perigo vindo em direção do seu cachorro e ele busca tirar o cão do raio de perigo.

Posteriormente quando seu cachorro se mostra reativo a aproximação do outro, o dono busca através do carinho acalmar o seu cão e mostrar que ele está a salvo.

Porém quando analisamos isso com referencial da ciência, através do condicionamento operante, fica claro que o dono reforçou aquele estado mental.

Primeiro ele coloca o cão no colo em um momento em o cão provavelmente também estava inseguro em função da aproximação de um outro cão de maior porte, então ali ele reforçou/premiou a insegurança, e depois ele o acaricia quando o cão está em um estado mental de reatividade, novamente reforçando e premiando aquele comportamento.

Nesse caso, o cão aprendeu que insegurança e reatividade são comportamentos que geram atenção e carinho, e por isso ele tende a voltar a demonstrá-los.

CASO 2: CÃES SENSÍVEIS A SONS

Todo final de ano encontramos apelos nas redes sociais pelo fim do uso de fogos de artifício na virada de ano, já que muitos cães são sensíveis a esse tipo de som.

O que acontece com muitos cães sensíveis a ruídos altos é que eles demonstram medo, entram muitas vezes em estado de fuga ou simplesmente congelam, nessa situação o dono tende a acariciá-lo e conversar com ele como tentativa de diminuir o estresse do cão e deixá-lo mais calmo.

Quando analisamos esse comportamento do ponto de vista do dono, é ruim ver seu cachorro em estado de estresse, e se esse comportamento começa quando filhote, é ainda pior. Então o dono tende a fazer o que acredita ser o melhor para diminuir o estresse do cão.

Porém quando analisamos isso com referencial da ciência, através do condicionamento operante, fica claro que o dono reforçou aquele estado mental onde o medo foi reforçado por carinho e pelo tom de voz afável do dono.

CASO 3: CÃES QUE PUXAM NA GUIA

Você já deve ter se deparado em situações onde o cão puxava a guia para alcançar uma árvore, um outro cão ou uma pessoa.

Como já discutimos em outros artigos como esse que você pode ler clicando aqui, os canídeos são animais que por natureza, tem uma velocidade de deslocamento maior que a dos seres humanos e também não tem a tendência de andar em linha reta e por esses e alguns outros motivos eles acabam puxando na guia.

Além do puxar natural, muitas vezes os donos reforçam o comportamento. Quando o cão alcança seu objetivo puxando, ele acaba sendo recompensado por aquilo, o que tende a aumentar a frequência do comportamento.

Todos os três casos são comportamentos que aumentaram sua frequência pois estavam emparelhados com alguma recompensa que foi dada quando o cão na verdade, não poderia ser recompensado.

A IMPORTÂNCIA DE NÃO REFORÇAR UM COMPORTAMENTO INDESEJADO

Os problemas citados como exemplos poderiam não ter surgido se ao invés da recompensa, o cão simplesmente tivesse sido ignorado e fosse impedido de conquistar seu objetivo ou recompensa.

Por isso é muito importante entender e utilizar do conceito de “não recompensa”. Esse conceito é muito simples:

BASTA NÃO RECOMPENSAR O CÃO E NÃO DEIXÁ-LO CONQUISTAR SEU OBJETIVO QUANDO O COMPORTAMENTO FOR INDESEJADO.

Quando um cão não tem um determinado comportamento reforçado, a tendência é que aquele comportamento não se repita com o passar do tempo.  

Mas quando você deve recompensar o seu cão? Essa questão é fundamental para o adestramento.

A recompensa deve ser muito bem manejada, ou seja, devemos descobrir quais são os objetos e situações que podem ser utilizadas como recompensa para nossos cães. Uma vez que descobrimos isso, podemos direcionar seu uso para momentos de melhor aproveitamento.

Por exemplo: cães que pulam em busca de carinho.

É comum encontrarmos cães que pulam em busca de carinho, e esse problema pode ser resolvido utilizando da “não recompensa” enquanto os cães estão pulando, e utilizando do reforço positivo quando os cães estão com as quatro patas no chão.

Para isso basta ignorar o cão enquanto ele pula, e assim que ele fixar as quatro patas no chão por 3 segundos ou mais, o dono marca e recompensa o comportamento com o objetivo do cão: carinho.

Utilizando do manejo correto das recompensas, e não reforçando comportamento indesejáveis, é possível criar um cão bem-educado que é bem-vindo no dia-a-dia de seus donos.

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