O universo pet vem crescendo ininterruptamente no Brasil e em grande parte do mundo. Nesse manifesto, nós destacamos a parcela referente aos cães, que no Brasil são mais de 54,2 milhões de indivíduos. O número parece vago, mas em alguns grandes centros urbanos, como Belo Horizonte, já temos mais cães do que crianças e adolescentes dentro das residências.

Nossos companheiros caninos nunca estiveram fisicamente tão perto de nós. Em pouco mais de 30 mil anos, seu ancestral em comum com os lobos, deu lugar para os melhores amigos do homem, com certeza um dos maiores sucessos de mutualismo estre espécies. Nesse processo saíram das pradarias/florestas/savanas para viverem em nossas fazendas, quintais, apartamentos e agora, muitos até dormem na cama com seus donos.

Para uma relação que se transformou tanto em tão pouco tempo, é natural que vários desafios se tornam atuais e de extrema importância para a sociedade. Talvez, o maior deles seja a forma com que vemos os cães juridicamente. Eles seriam sujeitos de direito ou objetos? Como devemos entendê-los?

No meio de tantos desafios, viemos discorrer e nos posicionar sobre um que está em alta, os esportes com cães.

Nos últimos meses, uma série de reportagens vêm colocando a prática esportiva com cães em destaque nos jornais impressos, telejornais e mídia digitais. O impacto gerado pelos holofotes tem sido tão grande que vários projetos de leis foram criados em tempo recorde para lidar com as situações que foram expostas. Muitos dos nossos políticos saíram da inatividade, e passaram a correr como nunca para defender uma causa nobre, mas da qual possuem pouca ou nenhuma expertise.

Staff Bull praticando A-Frame

No âmbito de esporte com cães, existem pelo menos 20 atividades que podem ser consideradas práticas esportivas, são elas:  bikejoring, Canicross, Disc Dog, Fly Ball, Agility, IGP, KNPV, Mondio ring, Dock Jumping, Corrida de cães (JACK RUSSEL,DASCHOUND, GALGOS…), corrida de cães de trenó, Musical Canine Freestyle, Skijøring, Staff Athletics, Top dog, Sheepdog trial, Dog Surfing, Heelwork to music, provas de obediência e Weight pulling. Ademais, existem atividades secundárias que dependendo do ponto de vista também podem ser consideradas como esportes, por exemplo: andar de bicicleta com seu cão.

Todos esses esportes e práticas, estão sendo ameaçados por projetos de lei relativamente recentes que não contam com auxílio ou parecer técnico de profissionais interessados, engajados e capacitados para lidar com os desafios e nuances de cada uma dessas práticas.

Nós atletas, adestradores, hobbystas, biólogos, Zootecnistas, veterinários, criadores de cães, psicólogos e demais profissionais, redigimos esse manifesto em prol das práticas esportivas com cães. Aqui, levantaremos e nos embasaremos em argumentos científicos, técnicos, socioculturais e econômicos que apoiam a nossa posição e defendem a prática das modalidades esportivas que citamos.

BEM-ESTAR

O primeiro tópico de interesse é o bem estar animal. Esse tema é antigo e pode ser utilizado para animais de produção, animais em zoológicos, animais destinados a pesquisas científicas e também aos pets. Entretanto, aquilo que é considerado como bemestar pode ser diferente entre as categorias.

Pastor Alemão treinando faro para prova de IGP

Resumidamente, a corrente do bem-estarismo acolhe o uso humano dos animais, mas esse uso deve estar em coerência com conceitos simples relacionados a dignidade do animal, a manejo contrário ao sofrimento desnecessário e uma regulamentação do tratamento animal. 

No caso do bem-estar para os cães, como animais domésticos, trata-se da adoção das boas práticas de criação (alimentação, acomodação, transporte…) desses animais. Essas práticas devem estar de acordo com a legislação vigente brasileira, e essa, com os avanços científicos e os critérios estabelecidos pelos acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Mas hoje existem diversas correntes divergentes em relação ao que é o bem estar nos âmbitos dos esportes, adestramento e criação. Uma série de profissionais defendem a prática de esporte em prol da saúde; o adestramento em prol da convivência e a criação em prol dos cães de funções, do legado cultural das raças e do simples direito de escolha. Enquanto outra corrente é contrária a prática de esportes que envolvem cães, contrária ao adestramento e contrária a qualquer tipo de criação e comércio de cães.

Incitando o pensamento crítico desse primeiro tópico, levantamos o conceito do Umwelt sugerido pelo biólogo Jakob von Uexküll. As práticas aqui mencionadas não devem ser analisadas puramente pelo referencial humano, mas deve ser considerado o referencial canino, afinal o bem-estar discutido aqui é referente aos cães, e aqui se encaixa o Umwelt.

Basicamente, esse termo indica que cada ser espécie possui uma forma de ver e interagir com o mundo, já que suas atividades receptoras e efetoras são específicas da espécie a qual pertencem. Ou seja, a forma com que o cão vê e interage com o mundo, é diferente da forma com que o ser humano vê e interage com o mundo

Resumidamente, o bem-estar deve ser pautado no referencial canino, e não no achismo de meia dúzia. Para identificar um possível referencial dos cães é preciso de embasamento técnico e científico, e nesse ponto entramos no segundo tópico desse manifesto.

Dupla praticando Canicross

CIÊNCIA

No que se refere a ciência, a literatura referente a prática esportiva, estilo de vida dos cães e a obesidade vem crescendo cada vez mais.

Países como Espanha, Austrália, Holanda, China, Inglaterra e França já possuem uma série de estudos publicados relatando a prevalência de obesidade em cães. Esses estudos estimaram a incidência de obesidade na população canina entre 22 e 40% dos indivíduos. Ou seja, a obesidade em cães é problema de saúde atual na maioria dos países desenvolvidos. A situação fica ainda mais grave porque a obesidade em cães contribui para o desenvolvimento de doenças e para diminuição do tempo de vida desses animais.

Abaixo segue uma lista com alguns dos problemas que podem aparecer ou se agravar com a obesidade:

  • Hiperlipidemia
  • Resistência a insulina
  • Intolerância à glicose
  • Síndrome metabólica
  • Hipopituitarismo
  • Lesões hipotalâmicas
  • Osteoartrite
  • Ruptura do ligamento cruzado cranial
  • Doença do disco intervertebral
  • Doença cardiorrespiratória
  • Incompetência do mecanismo do esfíncter uretral
  • Carcinoma de células transicionais
  • Neoplasia
  • Carcinoma de células transicionais
  • Comprometimento respiratório, por exemplo, dispneia
  • Hipertensão
  • Intolerância ao calor / insolação
  • Diminuição das funções imunológicas
  • Risco anestésico aumentado
  • Tempo de vida reduzido

E para terminar essa lista, destacamos um estudo que examinou mais de 50.000 cães de 12 raças distintas. Nele, foi observado que o efeito do excesso de peso diminuiu a vida útil dos cães com sobrepeso em até dois anos e meio, quando comparada aos cães com peso ideal.

Sabe-se que a principal razão para o desenvolvimento da obesidade é ter um resultado positivo entre a ingestão e o gasto de energia. E um dos fatores envolvidos é justamente a quantidade de atividade física insuficiente para o animal, o que o esporte com cães pode mudar radicalmente. Ainda em prol dos esportes com cães, não são só os animais que são beneficiados, um dado importantíssimo de um estudo espanhol aponta que proprietários com sobrepeso / obesidade tinham significativamente mais cães com sobrepeso / obesidade. Ou seja, o esporte com cães pode ser também uma ferramenta auxiliadora para os humanos.

Mesmo com tantas informações valiosas a disposição de zootecnistas, biólogos e médicos veterinários, esses profissionais são completamente esquecidos pelos governantes. Uma parcela de profissionais que impactam diretamente na produção científica e econômica do país. Sendo esse mais um ponto que pesa em prol do setor e dos esportes para cães.

Border Collie em ação no Agility

TÉCNICA

Do ponto de vista técnico, o Brasil é um berço de grandes treinadores e adestradores de cães, tendo profissionais e animais que se destacam nacionalmente e internacionalmente nas mais diversas modalidades de esporte com cães. Por que os profissionais referências em surf para cães, IGP, Mondio ring, Agility e demais esportes não são ouvidos durante o processo de formulação desses projetos de lei, enquanto influenciadores digitais com total desconhecimento na área opinam e influenciam diretamente na tomada de decisão e na escrita desses projetos?

ECONOMIA

Em 2019, o mercado pet brasileiro movimentou mais de 35 bilhões de reais, 295 milhões de reais somente com exportações, sendo um dos mercados que continua em ascensão mesmo em tempos de crise.

Nichando ainda mais para os esportes e tomando os EUA como referência, podemos ver como a prática esportiva com cães pode ser revertida em dinheiro para um país.

Segundo dados da AKC, em 2010 os esportes caninos contaram com: 

  • 2.499 provas de obediência com 125.223 inscrições;
  • 2.461 provas de agility com 947.137 inscrições;
  • 2.118 provas de rally com 80.530 inscrições;
  • 433 provas de rastreamento com 2.061 inscrições;

Já em 2014, só o Flyball contou com mais de 337 torneios, hospedados por 132 clubes de praticantes do esporte nos Estados Unidos e Canadá.

Números como esse movimentam diversos setores da economia, desde setores diretamente relacionados a cães, como o de rações e de medicina veterinária, até setores indiretos, como setor de transporte aéreo para o translado dos competidores, setor de hotelaria para hospedagem e setor sociocultural, já que esses eventos podem reunir dezenas de milhares de pessoas.

CONCLUSÃO

Baseado em todos esses argumentos aqui apresentados, reunimos um grupo de atletas, adestradores, hobbystas, biólogos, Zootecnistas, veterinários, criadores de cães, psicólogos e demais profissionais e nos manifestamos em prol das práticas esportivas com cães. Queremos através desse manifesto chamar a atenção do público leigo para esse estilo de vida que temos com nossos cães, chamar atenção dos políticos para que esses procurem parecer técnico científico antes de propor qualquer lei relacionada a prática esportiva com cães e lutar em prol do que acreditamos.

Para baixar o documento original, clique aqui!

REFERÊNCIAS:

  1. http://abinpet.org.br/infos_gerais/#:~:text=O%20Brasil%20tem%20a%20segund a,3%20milh%C3%B5es%20de%20outros%20animais.
  • ALEXANDER, J. G., The Growing Problem of Obesity in Dogs and Cats, The

Journal of Nutrition, Volume 136, Issue 7, 1 July 2006, Pages 1940S– 1946S, https://doi.org/10.1093/jn/136.7.1940S

  • LEIRA, M. H. et al. O novo conceito dentro do velho em bem-estar animal
  • MCGREEVY PD, Thomson PC, Pride C, Fawcett A, Grassi T, Jones B. Prevalence of obesity in dogs examined by Australian veterinary practices and the risk factors involved. Vet Rec. 2005;156:695–707.
  • MONTOYA-ALONSO, J ALBERTO et al. “Prevalence of Canine Obesity, Obesity-Related Metabolic Dysfunction, and Relationship with Owner Obesity in an Obesogenic Region of Spain.” Frontiers in veterinary science vol. 4 59. 25 Apr. 2017, doi:10.3389/fvets.2017.00059
  • University of Liverpool. “Overweight dogs may live shorter lives.” ScienceDaily. ScienceDaily, 3 January 2019.

<www.sciencedaily.com/releases/2019/01/190103110747.htm>.

  1. WANG, G.-D. et al. Out of southern East Asia: the natural history of domestic dogs across the world. Cell Res. 26, 21–33 (2016).

AUTORES: 

Iniciativa do Grupo Sporting Dogs Are Happy 

APOIADORES:

1 – Rafael Luiz Silva – Adestrador e Praticante de Stafford Athletics

2 – Federação Brasileira de Adestradores de Animais- FBAA

3 – Sindicato Nacional dos Criadores de Animais – SINCA-Xerimbabo

4 – Flat Nose Dog School – Escola de Adestramento

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